Texto do nosso enviado especial Betão

Retornar ao México tinha um de  ar de deja vu associado a uma novidade. Primeiro era voltar a um lugar onde fui muito feliz, segundo era a oportunidade de viajar com dois grandes amigos, Ramirez e Daniel, para apenas escalar.

Claro que nem tudo é perfeito. Como se verá adiante. Os primeiros dias na cidade do México foram para reencontrar os amigos, da universidade e da montanha, e para matar a saudade da própria cidade.

Com 20 milhões de habitantes, essa cidade só é menor que Tókio, mas ao contrário do que poderia imaginar um brasileiro, não tem nada a ver com São Paulo, é muito mais horizontal,  com áreas verdes, céu sempre visível e as pessoas são mais acolhedoras. É uma cidade cosmopolita com 15 linhas de metrô e museus fantásticos. Além de ter sido construída sobre Tenochitlan – a capital azteca – e sobre os lagos do Valle de México, o que imprime a essa megalópole rodeada de vulcões uma aura mítica.

Dentro da Cidade do México há, pelo que eu me lembre, 4 áreas de escalada, totalizando umas 500 vias. Mas nossos objetivos foram as áreas próximas à cidade do México, por volta dos 100 km de distância que são Mecas da escalada esportiva: la Cueva del Penitente em Actopan, las Peñas de Dextani Alto em Jilotepec e Chonta nas grutas de Cacauamilpa. La Cueva é um setor de tetos dentro de uma raríssima gruta de basalto. Fui aí duas vezes, uma antes da chegada de Dani e Ramirez e outra com eles juntos, em ambas vezes fomos com a pandilla de Carlos (Kike, Pancho, Lucas, Claudita, Melvin, Michelle, Hoesch…). Na primeira vez tive a oportunidade de viajar em 11 num carro…

Lá não conseguimos mais do que deixar pedaços de pele. É uma escalada bem diferente de tudo o que nós três estávamos acostumados.

Daí fomos para Jilotepec com nossos amigos Carlos Vargas, Kike, Pancho e Lucas. Devo explicar que Carlos é o treinador desses meninos. Kike tem 17, Pancho, 15 e Lucas, 11. Os dois primeiros estão escalando décimos e fazem parte da equipe mexicana juvenil de competição. É impressionante ver a integração da turma e o respeito que têm entre si. Além disso, Carlos, ou Chacha ou Charlie, é fundador do Fesp – fundo de escalada super-pobre – que nos anos 1990, equipou varias zonas de escalada no México, como los Dínamos, Jilotepec e Chonta.

Jilo ficou famoso fora do México depois do Rocktrip da Petzl de 2009. São vários setores e os mais impressionantes são os que ficam no huevo del Godzila, um ovão que abriga dúzias de vias, varias delas de 5.14, como a Megassessino e las Chicas Superpoderosas. Paga-se 10 pesos (R$1,50) para entrar e pode-se acampar na base da pedra. Tem algumas latrinas confortáveis mas não tem banho. Como faz frio (nevou…), a catinga é controlável.

Apesar do frio, que implicava em escalar três vias fáceis de sexto grau para aquecer os dedos e, daí para a frente, não parar até o fim do dia para não congelar de novo (isso mesmo: nada de esperar o grip mágico, ou a luz mágica ou a inspiração divina, o negócio aqui é escalar o dia inteiro: 8 entradas pelo menos, senão o dedo fica assustado pelo frio) a escalada aqui já rendeu mais:  Eu encadenei um 8c, la Gallina Negra e Dani um 9a, el Nahual. (claro que não tem fotos da minha cadena, mas tem fotos das tentativas de Dani na Mas si Osare um Extraño Enemigo ( um 10a – 5.13c – de 45 m).

De Jilotepec fomos para Teotihuacán, a famosa cidade do período clássico de Mesoamérica e que tem a terceira maior pirâmide do mundo e daí, para Chonta. Atravessamos a cidade do México pelo seu coração (não aconselhável para quem tem problemas cardíacos), dormimos na cidade de Cuernavaca onde encontramos com nossos amigos Carlos, Kike, Pancho, Lucas e os seguimos até el Hoyanco.

Como diz Carlos, Chonta es rompechingón. O potencial é impressionante assim como o visual. Quando chegamos, ficamos um tempo olhando dois alemães que estavam fazendo as 7 enfiadas da via Mala Fama (8a, 8c,9a,8c,9a,9b,7a).
Ficamos 1 semana aí, acampados perto da casa do proprietário, o compa dom Procópio Popoca. Logo no segundo dia eu encadenei a primeira enfiada da Mala Fama e machuquei a mão no desmonte. Daí não fiz mais nada alem de tirar fotos. Ramirez encadenou a primeira enfiada da Mala Fama (5.12a – 8 a), el Corrido de los Procópio (5.12 a – 8 a) e La bocina (5.12c – 8 c). Daniel errou a mão, ele estava tentando encadenar um 9a a vista, acabou encadenando, além das mesmas que Ramirez (mas em flash e equipando), um 5.13c – 10a flash (Jug de Toronja) e um 5.12d – 9 a (La Reyna del sur) de flash. Além dessas fez um 9c – 5.13c (bio) de terceira entrada. Como castigo ficou proibido de cair em qualquer 8º.

Ao fim dessa semana voltamos para Ciudad de México. Ramirez estava ansioso para testar seus limites na Iztaccíhuatl, vulcão de 5230m que fica perto da cidade do México. Novamente tivemos a companhia de Chacha nesta subida. Caminhamos 7 km de ida e volta, os maiores de toda a minha vida, e chegamos (bem, eu um pouco menos) a cerca de 4800m.

Ramirez voltou antes para o Brasil e eu e Daniel retornamos para Jilotepec. Aí consegui escalar um pouco, umas 3 vias de sexto grau com uma mão só. Daniel encadenou mais um 9a – 5.12d (la desalmada) a vista e no mais, choveu e nevou. Passamos os últimos dias num ritmo bem forte de cadena de tequilas e cervejas. Totalizando 7 garrafas de tequila e incontáveis  chelas, parte desse
esforço pode ser verificado na foto do início do texto.

É isso. No final, antes de retornarmos a nossas casas e à ausência de pedras que caracteriza Goiânia, passamos no museu de antropologia onde encontramos os restos mortais do primeiro escalador de cocal.